Queremos dobrar nossa participação no mercado brasileiro

dezembro 17, 2018 No Comments »
Queremos dobrar nossa participação no mercado brasileiro
*Panorama Farmacêutico
Juliana Azevedo, Presidente da Procter & Gamble No Brasil

A P&G muda da Venezuela para o Brasil o seu Centro de Inovação para a América Latina a fim de avançar nos lançamentos de produtos e dobrar sua participação de mercado.

Felipe Mendes

Engenheira industrial e advogada, a executiva Juliana Azevedo, 43 anos, entrou como estagiária na multinacional de bens de consumo Procter & Gamble aos 20. Nunca mais saiu. Adquiriu experiência em marketing, vendas, planejamento estratégico e gerenciamento, antes de escalar cargos de liderança na companhia mundo afora. Em janeiro, tornou-se a primeira mulher a ser nomeada presidente da P&G no Brasil. Antes disso, foi vice-presidente global de Cuidados Femininos na matriz da empresa em Cincinnati (EUA).

Em 6 de dezembro, quando recebeu a reportagem da DINHEIRO, Juliana celebrava 30 anos da P&G no País. “A cada dia, sinto que aprendo um pouco mais e que ainda estou no meio da minha jornada”, disse ela, que aproveitou a data para falar do programa Água Pura para Crianças. Num País em que o acesso à água tratada é regalia de poucos, a P&G desenvolve e distribui sachês purificadores em comunidades ribeirinhas do Amazonas, Vale do Jequitinhonha (MG) e no extremo sul da Bahia. Implementada com a ajuda de parceiros em 2014, a iniciativa já purificou mais de 68 milhões de litros de água, beneficiando 38 mil pessoas nessas localidades. No entanto, os projetos da P&G não param por aí…

DINHEIRO – A P&G está prestes a inaugurar seu Centro de Inovação, que teve um aporte de R$ 150 milhões, na cidade de Louveira (SP). Com essa unidade, a ideia é acelerar o lançamento de novos produtos?

JULIANA AZEVEDO – Trazer o Centro de Inovação para o Brasil é um presente ao País em comemoração aos 30 anos da P&G aqui. Ele vai servir a toda a América Latina e ao mundo. O Brasil, pelo tamanho, é o terceiro maior mercado potencial para a marca, mas também é um lançador de tendências. Nós estamos na vanguarda e agora podemos materializar isso num polo que será responsável não só por reaplicar a tecnologia de outros países aqui, mas também para liderar as inovações. Eu tenho 120 cientistas aqui.No mundo todo, a P&G tem 7.500. Eu quero acessar esses 7.500, mas ajustando o conhecimento deles ao que é necessário aqui. Com o Centro de Inovação podemos juntar o melhor dos dois mundos.

DINHEIRO – Por que o Brasil foi o País escolhido para receber o centro, que antes ficava na Venezuela?

JULIANA – Depois de muitas análises decidimos que o Brasil tem a melhor combinação de fatores positivos. Nós temos talento para alimentar o Centro de Inovação, nós temos um parque de fornecedores para nos ajudar no processo e nós temos um consumidor muito exigente. Desenhar inovação para um cliente exigente ajuda que ela funcione em outras partes do mundo também. O Centro de Inovação está dentro de um campus onde temos uma área grande de manufatura e engenharia. Nós também estamos tentando desenvolver, através de realidade virtual, formas de transportar esse conhecimento para dentro da loja, para fazer realmente uma inovação de ponta a ponta, que é o que o consumidor quer. Isso nos deixa muito otimistas com o futuro.

DINHEIRO – Boa parte desse time de cientistas é formado por venezuelanos, certo? Por que o centro de inovação saiu de lá?
Teve a ver com o governo Maduro?

JULIANA – A Venezuela se tornou um país difícil. No momento, temos o Brasil ganhando mais espaço e a Venezuela perdendo. Vários venezuelanos vieram para cá. São pessoas que têm um histórico importante de conhecimento e informação.

DINHEIRO – Ser a primeira CEO mulher da companhia em 30 anos de Brasil é uma responsabilidade muito grande?

JULIANA – Não acho que o meu desafio seja maior pelo fato de eu ser mulher. Na verdade, sou privilegiada por trabalhar numa empresa em que a inclusão não é moda, é uma escolha. Exemplo disso é que 42% da nossa diretoria é formada por mulheres, índice muito acima do que temos no mercado. Eu me sinto extremamente apoiada e ser mulher nunca foi uma barreira para mim. Sou formada como engenheira, fui a primeira oradora mulher na Poli-USP. É um desafio grande, porque as nossas metas são grandes. Mas também seria se um homem estivesse à frente da operação.

DINHEIRO – Qual foi o impacto da greve dos caminhoneiros na operação da P&G no Brasil?

JULIANA – Foi um período muito difícil. Foram 11 dias parados. Se olharmos os impactos da greve no consumo, o mercado ainda não se recuperou. Até porque se criou uma ruptura que afetou muito mais do que a indústria. Na verdade, impactou a vida das pessoas que tiveram falta de produtos nos supermercados, alguns hospitais tiveram que fechar… Conseguimos fazer um trabalho bom, mas parte da confiança do consumidor ainda não voltou. No entanto, estamos bem satisfeitos com a nossa recuperação.

DINHEIRO – A greve fez com que a empresa buscasse novas soluções logísticas para chegar aos clientes?

JULIANA – Logística é uma das áreas em que nós mais inovamos por aqui. O custo do transporte no Brasil é muito alto e, muitas vezes, ineficiente. Esse evento não resultou em nada de diferente do que já estávamos fazendo. Nós usamos caminhões, trens e navios. Utilizamos toda a malha disponível e estamos sempre em busca de alternativas.

DINHEIRO – Qual é a importância da operação brasileira para a P&G no mundo?

JULIANA – Como potencial e tamanho de mercado, o Brasil está entre os três maiores. E, em receita, nós estamos entre os dez maiores da companhia. Portanto, ainda podemos crescer muito mais. Apesar de sermos uma operação jovem no País, temos metas grandes.

DINHEIRO – Quais são elas?

JULIANA – Nós temos uma participação de mercado de 16% aqui no Brasil. E não tem porque não passarmos dos 20% e chegarmos aos 30%. No México, que pode ser um exemplo, já estamos com cerca de 30%. Os nossos irmãos argentinos estão acima dos 40%. Temos um trabalho importante pela frente.

DINHEIRO – Pensam em fusão ou aquisição com alguma empresa brasileira?

JULIANA – A grande aquisição que nós fizemos foi a nível global, a parte de consumo da Merck, mas que é uma empresa de presença muito grande na América Latina.

DINHEIRO – A Merck foi adquirida em abril por US$ 3,9 bilhões. Como será o trabalho que a P&G desenvolverá para alavancar os produtos dela aqui?

JULIANA – Esta aquisição só foi efetivada no Brasil no dia 3 de dezembro. Isso abre portas fantásticas para crescermos no mercado de saúde, seja na parte de prevenção, com vitaminas, ou na parte da cura, com os medicamentos. Uma das marcas mais conhecidas da Merck, que vende medicamentos por prescrição, talvez seja a vitamina Cebion. Acreditamos que esse é um segmento que tende a continuar crescendo. Além da Merck, temos uma forte atuação na área com as marcas Vick e Metamucil, que vão muito bem. Mas nós ainda não temos 100% das respostas, até porque o primeiro contato que nós fizemos com a Merck foi recente. O que eu posso falar é que os produtos da Merck e da P&G são muito complementares na área da saúde.

DINHEIRO – Em junho, a P&G entrou no mercado de lavanderias em sete pontos em São Paulo com a marca Ariel. Nos EUA, isso começou há oito anos, com marca Tide Dry Cleaners. O que esperar dessa movimentação da empresa?

JULIANA – Começamos esse projeto há alguns meses. Estamos em fase de experimento com algumas lojas em São Paulo. Aprendendo muito sobre como se relacionar com o consumidor e quais são os tipos de produtos que iremos entregar antes de realizarmos uma grande expansão. Entendemos que a performance continua sendo importante na categoria, no entanto, o consumidor mais jovem está mais preocupado em ter a roupa perfeita, do jeito mais prático possível, sem levar em consideração se essa remoção de mancha é melhor do que aquela. Essa é uma tendência das grandes metrópoles. Por isso, decidimos fazer um experimento e aprender com essas lavanderias. É um experimento pequeno para nós, diferentemente do que é nos Estados Unidos, onde a Tide tem uma liderança maciça. Os resultados até agora são extremamente positivos. Nós também estamos criando no Centro de Inovação para serem usados nesse tipo de serviço em grande escala. Mas o que queremos, a curto prazo, é aprender como servir melhor esse consumidor que quer ter uma roupa perfeita, limpa e seca o mais rápido possível.

DINHEIRO – O que a P&G está trazendo de inovação na linha de higiene bucal?

JULIANA – Temos inovação para a parte do tratamento de gengiva e trabalhamos também para a complementação do nosso portfólio infantil. O Brasil ainda tem uma penetração baixa de escovação em crianças. Se você quiser ser uma marca que ajuda as pessoas a terem higiene bucal, é preciso começar desde novinho, né?

DINHEIRO – Uma das apostas para o futuro da P&G é investir em incontinência urinária feminina. Por que e como a empresa vai entrar nesse mercado no País?

JULIANA – Isso é uma das tendências globais à medida que as populações vão envelhecendo. Então é uma categoria importante para participar. Nós entramos nesse segmento nos Estados Unidos e em alguns países na Europa nos últimos três anos. E o Brasil já é o terceiro maior mercado na categoria. Estamos fazendo alguns experimentos, algumas parcerias, para confirmar o aprendizado que temos fora. Com certeza, essa é uma categoria que cresce bastante hoje. A médio prazo, ela só tende a crescer mais.

DINHEIRO – Mais homens estão usando barba. Isso chegou a afetar as vendas de produtos da marca Gillette?

JULIANA –Temos visto uma evolução de comportamento e de relacionamento nos homens. Não há dúvidas de que ele está mais envolvido com a beleza hoje em dia. É uma mudança impactante porque você tem muitas celebridades e influenciadores que estão se comportando dessa forma. Mas temos planos para completar as nossas linhas de produtos da Gillette no futuro, até porque ela é a marca mais preciosa que nós temos para o ritual da beleza dos homens. Na parte de remoção dos pelos, temos muitas inovações. Uma coisa é você ter uma barba grande, volumosa e descuidada. Não é isso que nós vemos. Nós vemos uma barba que às vezes é quase que um trabalho artístico e temos produtos que ajudam o nosso consumidor a aperfeiçoar esse visual.

DINHEIRO– O que esperar de 2019? A retomada dos indicadores econômicos podem ajudar acompanhia?JULIANA– Tenho olhado para 2019 de uma forma bem positiva. Estamos crescendo em2018 e temos um plano de inovações que começou agora e seguirá muito mais forteno próximo ano. Estamos nos preparando para crescer independente do contextoeconômico. Com mais estabilidade e redução de desemprego, o consumo seráretomado.

Fonte: IstoÉ Dinheiro

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