OMS esclarece que pacientes assintomáticos podem transmitir covid-19

Líder técnica da entidade se retifica após dizer que transmissão por infectados sem sintomas era ‘muito rara’

*Estadão

Guilherme Bianchini, especial para o Estadão

09 de junho de 2020 | 12h55

A Organização Mundial da Saúde (OMS) esclareceu nesta terça-feira, 9, que a transmissão da covid-19 está, sim, ocorrendo a partir de casos assintomáticos da doença, mas ainda não há conclusões sobre a proporção. A entidade decidiu se pronunciar um dia após a diretora técnica da entidade, Maria Van Kerkhove, dizer que a transmissão por pacientes sem sintomas era “muito rara”. O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, citou essa fala para defender a flexibilização da quarentena, nesta terça.

A retificação do discurso partiu da própria Van Kerkhove, no início de uma transmissão ao vivo da OMS nas redes sociais para responder a perguntas da população. A líder técnica afirmou que houve um “mal-entendido” a partir de uma resposta na coletiva de imprensa desta segunda-feira, 8. Segundo a diretora, seu comentário não era uma declaração oficial sobre uma política da entidade.

“Temos pouquíssimos estudos — dois ou três — que tentaram acompanhar casos assintomáticos ao longo do tempo. É uma amostragem pequena. Falei que a transmissão por pacientes sem sintomas é ‘muito rara’, e isso pode ter causado o mal-entendido. Estava me referindo a estudos e a alguns dados que ainda não foram publicados. O que recebemos dos Estados-membros é que, quando acompanhamos os casos assintomáticos, é muito raro encontrar uma transmissão secundária”, justificou-se Van Kerkhove.

Maria Van Kerkhove
A líder técnica da OMS, Maria Van Kerkhove. Foto: Cristopher Black/OMS

O diretor do programa de emergências da OMS, Michael Ryan, foi ainda mais enfático sobre o assunto. Ele garantiu estar “absolutamente convencido” de que a transmissão por pacientes assintomáticos está ocorrendo. “A questão é saber quanto”, complementou.

De acordo com Van Kerkhove, as estimativas sobre a quantidade de pessoas assintomáticas no mundo são bastante prematuras. Até o momento, as pesquisas sugerem que uma faixa entre 6% e 41% da população global pode ter contraído o novo coronavírus sem manifestar sintomas da doença.

Coordenador do controle de doenças da Secretaria de Estado da Saúde de São PauloPaulo Menezes endossou o discurso da OMS. Ele lembrou de dois acontecimentos no Brasil, no início da pandemia, que reforçam a possibilidade de transmitir o vírus mesmo sem apresentar sintomas: o contato com quem havia voltado assintomático de viagem do exterior e o casamento em Trancoso, na Bahia, da irmã da influenciadora Gabriela Pugliesi.

“O que a OMS quis dizer é que a probabilidade de alguém sem sintomas transmitir o vírus é baixa. Mas, aqui no Brasil, houve um encontro de quem veio do exterior com outras pessoas. Após esse encontro, ele desenvolveu sintomas e procurou assistência médica. Semanas depois, pessoas que tiveram contato com ele apresentaram sintomas. Outro episódio é o do casamento onde pessoas que ainda não apresentavam sintomas transmitiram o vírus a outros”, afirmou Menezes.

Opas cita ‘pré-sintomáticos’

A Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço da OMS nas Américas, destacou a diferença entre as pessoas assintomáticas — infectados que não apresentam sintomas — e as pré-sintomáticas — pacientes na fase inicial da doença que ainda não manifestam sintomas.

“Os dados científicos, até o momento, mostram que é menos provável ter o contágio a partir de uma pessoa totalmente assintomática, em comparação com as pré-sintomáticas”, explicou o gerente de incidentes da Opas, Sylvain Aldighieri.

O órgão regional também se posicionou a respeito da polêmica na divulgação dos números da covid-19 no Brasil. Para o diretor do Departamento de Doenças Transmissíveis, Marcos Espinal, é válido revisar os dados, assim como China e Nova York já fizeram, desde que as estatísticas continuem sendo repassadas a todos. No último sábado, 6, o Ministério da Saúde manifestou interesse em recontar as mortes pelo coronavírus no País.

“Não é ruim revisar os dados. Mas recomendamos que os dados de todos os países sigam sendo informados, porque permite a nós e aos próprios governos ter uma visão clara do que está acontecendo. Permite, também, que os autores de políticas públicas saibam como planejar o combate à doença”, disse Espinal.

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