Indústria diz que lei não promove a reciclagem

Banimento do plástico descartável em bares e restaurantes da cidade de São Paulo pode significar ajustes de produção e demissões no segmento

Por Ana Paula Machado — De São Paulo

*Valor

A Prefeitura de São Paulo sancionou, neste mês, a lei que proíbe o fornecimento de copos, pratos e talheres de plástico por estabelecimentos comerciais como bares e restaurantes e em eventos na cidade. A legislação entra em vigor em 1º de janeiro de 2021. Segundo a prefeitura, a norma ainda não foi regulamentada e deverá ser ao longo desse ano.

O governo municipal segue uma resolução da Organizações das Nações Unidas (ONU), que em março de 2019 em uma assembleia para o Meio Ambiente, aprovou uma norma que incentiva os governos e o setor privado a “tomarem medidas abrangentes, em relação aos produtos plásticos de uso único (descartáveis) para diminuir a geração de resíduos e diminuir o desperdício.”

Em razão dessa orientação da ONU, a União Europeia também aprovou uma lei para proibir o uso de itens de plástico descartável a partir de 2021. E mais recentemente, a China publicou norma semelhante e espera até 2025 diminuir o uso e a geração de lixo de plástico no país.

“A eliminação do plástico precisa ser enfrentada de vários modos e um deles é o da diminuição da geração de resíduos, que minimiza os custos de seu tratamento e destinação, que no Brasil são gerenciados pelos municípios. Uma cidade como a de São Paulo assumir a decisão de eliminar os plásticos de único uso é uma forma de iniciar o enfrentamento”, informou a prefeitura, em nota.

Mas a medida tomada pelo governo da maior cidade brasileira vem sendo criticada. Fabricantes de utensílios de plástico de uso único dizem que a lei teria que vir junto às iniciativas para melhorar o indice de reciclagem do material. O presidente da Associação Brasileira da Indústria do Plástico, José Ricardo Roriz Coelho, disse que, apesar do impacto na produção total de plástico no país ser pequeno – o produto destinado à fabricação de copos, pratos e afins representa de 3% a 4% do volume total – a cadeia poderá apresentar aumento nos custos fixos.

“Não está claro como será essa fiscalização. Hospitais por exemplo poderão utilizar copos de plástico? Não se sabe. É uma medida simplista e, posso dizer, eleitoreira. Não há embasamento técnico para tal proibição. O governo municipal perdeu uma grande oportunidade de mostrar que o caminho é a economia circular”, afirmou Roriz Coelho.

O grupo Copobras, um dos maiores fabricantes de copos, pratos de plástico, produziu 900 mil quilos desses produtos para a cidade de São Paulo no ano passado. O presidente do grupo, Mario Schlickmann, disse que com a proibição do uso desses utensílios na capital paulista a companhia terá que fazer ajustes em sua produção. “Temos a certeza de que o volume a ser perdido não será recuperado em outro mercado. Com essa perspectiva, a primeira, grande e imediata medida que caberá às empresas, é enxugar custos de maneira severa”, disse o executivo ao Valor.

Atualmente, a Copobras tem cinco fábricas que produzem copos e pratos de plástico e emprega 1 mil pessoas nesse segmento. No ano passado, o faturamento da divisão foi de R$ 15 milhões. “Não houve uma discussão técnica e abrangente. Os contrapontos não foram debatidos para buscar o melhor caminho para equilibrar as necessidades da cidade”, ressaltou Schlickmann.

Segundo ele, a lei sancionada na capital paulista não aponta quais produtos poderão ser usados em substituição ao plástico. “Material biodegradável custa até três vezes mais que o plástico. Aumenta muito o custo de produção”, afirmou o executivo.

A petroquímica Braskem desenvolveu um plástico verde que usa polietileno de etanol de cana de açúcar. Segundo a companhia, esse produto, que é fabricado em sua unidade de Triunfo, no Rio Grande do Sul, é atualmente matéria-prima para a produção de sacolas plásticas.

Em nota, a companhia informou que o desenvolvimento sustentável norteia as estratégias da Braskem. “É importante discutir o banimento, mas acreditamos que é necessário ter iniciativas que levam à racionalização do uso, que promovem a importância do consumo consciente e do papel de cada um de nós para a construção de uma sociedade mais sustentável”, diz a Braskem.

A petroquímica informou, ainda, que participa do Programa de Logística Reversa de Copos Descartados de Polipropileno (PP). O material coletado é levado para recicladoras e transformado em resina.

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