Brinquedo chinês mais caro ou em falta pode favorecer fábrica nacional

Fatia do produto feito no Brasil nas vendas pode subir para patamar entre 60% e 65%, estima a Abrinq. Hoje está em 52%

*Valor

Por Alexandre Melo — De São Paulo

09/03/2020 05h00  Atualizado há 10 horas

A alta do dólar, que encarece produtos importados, e a epidemia de Covid-19, que freou o ritmo de produção na China nos últimos meses, pode abrir espaço para fabricantes de brinquedos instalados no Brasil. A ociosidade das fábricas locais é alta, entre 55% e 60%. Se o cenário não mudar até junho, o Grupo Ri Happy, maior varejista do setor no país, cogita elevar as compras no mercado interno.

No ano passado, as vendas de brinquedos somaram R$ 7,3 bilhões e 52,3% desse valor referem-se a produtos feitos pela indústria local – no país estão instaladas cerca de 400 fábricas.

“O nível de uso da capacidade da indústria oscila entre 40% e 45%”, afirmou Synésio Costa, presidente Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos (Abrinq). Segundo ele, as fabricantes brasileiras estariam prontas para suprir a demanda da Ri Happy e da Lojas Americanas, consideradas as varejistas que mais vendem brinquedos no mercado nacional.

Costa disse que, há duas semanas, 60% das indústrias que operam na China foram reabertas com o aval das autoridades locais, de acordo com dados da Associação Chinesa de Brinquedos e Produtos Juvenis (CTJPA, na sigla em inglês), que reúne 5 mil membros. Mas boa parte dos funcionários ainda não voltou para as linhas de produção, com dificuldades de transporte ou receio da epidemia.

Héctor Núñez, presidente do Grupo Ri Happy, afirmou que a produtividade do setor na China ainda é baixa. “É preciso que todas as etapas estejam funcionando perfeitamente: disponibilidade de matéria-prima, transporte até a fábrica, linhas de produção, transporte até o porto, contêineres e navios.”

O grupo, que tem 284 lojas no Brasil com as bandeiras Ri Happy e PBKids, importa 55% dos produtos que vende. Segundo Núñez, até o momento as encomendas não atrasaram. A Ri Happy criou um comitê de crise há duas semanas e está em contato permanente com fornecedores. “Por hora, não há risco, mas se a epidemia se estender até junho, haverá uma ruptura na cadeia global de brinquedos”, afirmou.

A China é um dos maiores polos industriais do setor no mundo, onde são feitos itens da Mattel (Barbie e Hot Wheels), Hasbro (Baby Alive e My Little Pony), Lego e MGA Entertainment (das bonecas LOL). Mas alguns remanejamentos são possíveis. Núñez, da Ri Happy, considera que a Lego poderia exportar de seu complexo industrial no México e lembra que o Vietnã também abriga fábricas importantes.

Em fevereiro, Joe Euteneuer, diretor financeiro da americana Mattel, disse a analistas que o retorno da força de trabalho na China estava sendo comprometido por diretrizes do governo. “Esperamos atrasos na produção no primeiro trimestre, o que pode impactar os resultados, mas, historicamente, [o período é] sazonalmente menor para produção e receita.”

Deborah Thomas, diretora financeira da concorrente Hasbro, também relatou problemas semelhantes no mês passado, em teleconferência sobre o balanço global. “Há interrupções em nossa cadeia de suprimentos e operações comerciais na China, pois as viagens são limitadas e os funcionários e operários demoram a retornar ao trabalho”, afirmou.

Uma crise no abastecimento da cadeia de brinquedos ajudaria a indústria nacional a aumentar sua participação de mercado para patamar entre 60% e 65%, estima o presidente da Abrinq, que realiza nesta semana a Feira Internacional de Brinquedos (Abrin), normalmente responsável por até 35% das vendas do setor no ano.

Carlos Tilkian, presidente da Brinquedos Estrela, disse que a expectativa é expandir a receita acima de 10% este ano. Mas ele adverte que é um erro “subestimar a capacidade de reação chinesa”. “A indústria nacional não pode contar com esse fator para elevar as vendas. Seria um erro estratégico”, acrescentou.

Outra preocupação do setor é a valorização do dólar. Em um momento em que a economia ainda cresce em ritmo lento, executivos e empresários não veem espaço para repassar a alta aos preços.

“As empresas deverão buscar alternativas para contornar o aumento de custos, como trabalhar com um mix de produtos de menor preço, sacrificar as margens ou investimentos em marketing”, disse Tilkian.

“O atual patamar do dólar pode prejudicar as margens e os preços. Fazemos o possível para não impactar o preço ao consumidor”, afirmou Núñez, da Ri Happy.

Views All Time
Views All Time
123
Views Today
Views Today
1

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*

Please copy the string hDs1vf to the field below: